10-10-07
Agricultura Biológica: Produção e Consumo
De acordo com dados estatísticos recentes, a nível global existem actualmente mais de 26 milhões de hectares de área biológica em todo o mundo. Os países que apresentam maior crescimento são a Austrália (11,3 milhões de hectares, a Argentina (2,8 milhões de hectares) e a Itália com mais de 1 milhão de hectares. É na Europa que se concentra maior área de terreno cultivada, embora se verifique que, na União Europeia, o aumento se deve à entrada dos novos Estados-membros que contribuiram só por si com mais de meio milhão de hectares.
A diferença entre os países ainda é substancial. Mais de 12% da terra na Áustria é cultivada em modo biológico, 10% na Suiça, 6% na República Checa. Em alguns países não chega ainda a 1%. A Itália só por si, reúne o maior número de explorações e a maior área, sendo aí que se situa quase um quinto da área da União Europeia em modo de produção biológico.
A Alemanha por outro lado, é o maior mercado nacional da Europa, com quase 1 terço do volume de mercado europeu. Outros países em que o volume de vendas é superior a 1 bilião de euros são a França, o Reino Unido e a Itália. Enquanto que na Alemanha, Itália e Suiça, o mercado cresceu anualmente 5% no Reino Unido o crescimento foi de 10%.
Estudos realizados concluem, que os consumidores Europeus gastam 2 vezes mais em alimentos biológicos do que nos anos 90. No entanto o preço continua a ser uma condicionante na medida em que os consumidores não estão disponíveis para pagar mais.
O custo dos alimentos biológicos é mais elevado do que os convencionais porque o preço marcado reflecte o verdadeiro custo de produzir: inclui a limpeza da água, os custos de produzir, colher, transportar e armazenar. Para além disso tem que responder a regras estritas impostas por um regulamento o que não acontece na agricultura convencional. Por outro lado a gestão e o trabalho que o modo de produção biológico exige é quase sempre mais dispendioso do que a aplicação de produtos fitofarmacêuticos.
Muitos dos custos adicionais dos produtos biológicos são também gerados ao longo da cadeia de processamento e distribuição, o que está relacionado com a quantidade relativamente menor de produtos que são transacionados. Se a oferta disponível crescer nos próximos anos, os preços dos produtos ao consumidor tenderão potencialmente a descer sem afectar em grande medida o rendimento do produtor.
O verdadeiro custo dos produtos biológicos não é apenas o preço a que é vendido, os produtos biológicos transportam custos escondidos. As rotações de culturas que mantêm a fertilidade dos solos, os elevados cuidados prestados com o bem estar animal, a restrição na utilização de inputs químicos, e a preservação do ambiente e dos habitats naturais, implicam custos de produção mais elevados.
Os sistemas biológicos consideram que a saúde do consumidor está directamente ligada com a saúde dos alimentos e à saúde do solo.
A agricultura biológica tem como objectivo a produção de alimentos de qualidade a partir de um solo saudável e em equilíbrio nutricional. Os regulamentos comunitários determinam aquilo que os agricultores podem e não podem fazer durante todo o processo produtivo dando grande importância e prioridade à protecção do ambiente.
A agricultura biológica melhora a estrutura dos solos e assegura a conservação e utilização sustentável da biodiversidade, restaura o equilíbrio ambiental e é sustentável a longo termo.
Na produção vegetal são aplicadas diferentes práticas: cobertura do solo com leguminosas, utilização de composto de vegetais ou de fertilizantes pouco solúveis, adopção de medidas preventivas para controlo das pestes e doenças, escolha das espécies e variedades mais apropriadas, rotações, controlo mecânico de infestantes e protecção de organismos benéficos.
Na pecuária procura-se aproximar os animais do seu habitat natural que são alimentados com alimentos biológicos. As raças são seleccionadas de acordo com o seu ambiente natural e resistência a doenças. È proibida a utilização de antibióticos, aditivos, hormonas e reguladores de crescimento. Os tratamentos devem basear-se tanto quanto possível em produtos medicinais naturais. Os antibióticos e outros tratamentos químicos alopáticos só serão permitidos para fins terapêuticos sob condições estritamente controladas.
É por este motivo que geralmente se atribui maior segurança aos alimentos biológicos relativamente aos convencionais.
Contudo, também podem encontrar-se exemplos de baixa segurança em produtos biológicos, como por exemplo micotoxinas em cereais biológicos expostos a condições de armazenagem inapropriadas ou infecções de salmonellas causadas por exposições demasiado longas a condições ao ar livre.
Diversos estudos publicados nos últimos anos têm demonstrado que os alimentos biológicos são substancialmente mais saudáveis relativamente aos convencionais:
- apresentam em média 63% mais cálcio, 73% mais ferro, 118% mais magnésio, 178% mais molibdénio, 91% mais fósforo, 125% mais potássio e 60% mais zinco;
- têm níveis mais elevados de anti-oxidantes com capacidades anti-cancerígenas, estimulantes do sistema imunológico e redutores do efeito de envelhecimento. Muitos desses compostos são fabricados pelas plantas em resposta ao stress ambiental e a sua produção é interrompida com a aplicação de pesticidas e herbicidas;
- contêm 6 vezes mais ácido salisílico. Esta substância é responsável pela acção anti-inflamatória da aspirina e ajuda a combater o endurecimento das artérias e o cancro do intestino;
- em média têm maiores índices de vitamina C, minerais e nutrientes;
- a utilização de composto e adubo orgânico, quando de boa qualidade, contribuem para a redução de infecções por Escherichia coli e micotoxinas nos alimentos;
- contêm menos água;
- ovos de produção biológica analisados continham em média 4 vezes mais vitamina A e eram isentos de resíduos de substâncias químicas;
Sabe-se também que o consumo prolongado de alimentos que contêm substâncias químicas, provoca a acumulação da sua concentração no sangue e urina. Muitos destes produtos químicos são conhecidos por danificar os sistemas hormonais, nervosos e imunológicos, estando-lhes associado o aparecimento de certos tipos de cancro, desordens neurológicas, problemas de reprodução e doenças auto-imunes como a asma ou a fadiga crónica.
Apesar de a maioria dos estudos efectuados comprovarem estes dados, existe também grande controvérsia já que numerosos estudos tentam provar o contrário e demonstrar não haver evidências claras quanto à melhor qualidade nutritiva ou organoléptica dos alimentos biológicos.
Contudo, é unânime reconhecer as vantagens da não utilização de químicos prejudicais no cultivo de plantas em modo de produção biológico.
Em Portugal, o aumento de consciência relativamente à saúde e ao ambiente tem provocado um crescimento de interesse em alimentos e fibras naturais. O suporte financeiro oferecido pela União Europeia e a subida dos preços de mercado têm cativado os produtores. Por outro lado em alguns locais, a agricultura tradicional aproxima-se da biológica o que facilita a conversão.
A oferta no entanto continua inferior à procura, reflectindo o facto de que a agricultura biológica está ainda num estado inicial. O Plano de Acção Europeu para a Agricultura Biológica, a implementação de outras políticas de suporte, o facto de este ser um mercado com potencial e em crescimento e o aumento da actividade de investigação são factores que permitem prever que a área em modo de produção biológico continue a crescer nos próximos anos.
Fonte: AMAP
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