16-10-07
Chícharo: Uma leguminosa virtuosa
A origem da sua utilização perde-se na voragem do tempo; certo é que os romanos já a cultivavam, e poderá ter sido trazida por estes do Norte de Africa. Os chicharros (Lathyrus sativus) são cultivados também para forragem animal. Têm ainda a capacidade de captar o azoto atmosférico para o solo no final do ciclo vegetativo, assim fertilizam o terreno onde são cultivadas, sendo bastante interessantes nas rotações praticadas na Agricultura Biológica.
A partir do século XVI com a descoberta dos portugueses da América, deu-se início a proliferação no Velho Continente de importantes produtos que viriam a transformar os nossos hábitos alimentares, nomeadamente o milho, tomate, batata, feijão e tantas outras plantas comestíveis. As leguminosas que os portugueses utilizavam eram a fava, a ervilha (estas apenas na Primavera), o grão-de-bico, a lentilha, o tremoço (e tremocilho) e o chícharo. Com a introdução das diversas tipologias de feijão, o chícharo foi esquecido, sendo empurrado para a alimentação animal tornando-se a leguminosa sinónima de “comida dos pobres”.
É uma leguminosa muito versátil na cozinha; de gosto macio, desenfastiante, refinado - uma verdadeira surpresa para quem nunca o experimentou. Pode ser comido substituindo as outras leguminosas (também é preciso demolhar de um dia para o outro); outrora importantes na alimentação das populações das serras calcárias de Sicó-Alvaíazere, parcas em água, estão agora a ser promovidas, em sua honra e proveito, no famoso festival gastronómico de Alvaiázere que decorre todos os anos em Outubro.
Da leguminosa aponta-se um aspecto negativo; quando representa uma grande proporção na alimentação (diária (superior a 30%) e durante, várias semanas ou meses, pode levar ao aparecimento de uma doença chamada latrinismo -um síndrome neurológico que se caracteriza por uma rigidez muscular e paralisia dos membros inferiores.
Este pitéu pode ser apreciado através de uma grande variedade de receitas: migas de chícharo, a chicharada- uma espécie de feijoada, mas sem feijão, a sopa de chícharo, cozida com abóbora, com couves miudinhas e broa ou ainda em doçaria, pudim, tartes e compotas.
Actualmente é muito procurada por vegetarianos, vegans e macrobióticos, sendo rica em flavonóides, enzimas e prótidos.
O chícharo foi e será um dos elementos mais importantes da cozinha mediterrânea, tendo a ele associadas imensas propriedades terapêuticas. É recomendado para pessoas que sofrem de problemas digestivos, dores nos joelhos, músculos, anemia e diabetes. É considerado um excelente diurético, sendo-lhe popularmente atribuídas características afrodisíacas.
Nota: O Quental Biológico, em Coimbra, tem a sua disposição chícharos de Agricultura Tradicional. Apoie com a nossa colaboração a região das Serras de Sicó-Alvaiázere. (Re)descubra o sabor desta leguminosa.
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